Na contra-capa do livro vemos o seguinte:
“Não queremos lhe contar O QUE ACONTECE neste livro.
É realmente uma HISTÓRIA ESPECIAL, e não queremos estragá-la.
[…]
Depois de ler este livro, você vai querer comentá-lo com o seus amigos. Quando o fizer, por favor, não lhes diga o que acontece. O encanto está sobretudo na maneira como esta narrativa se desenrola.”
Então, se você nunca leu Pequena Abelha talvez não devesse ler o que escrevi a respeito porque faço algumas revelações sobre o enredo. Nenhum grande spoiler, mas mesmo assim penso que você deveria ler "às cegas", como eu fiz. E realmente concordo, grande parte do encanto reside na forma como as lacunas vão sendo aos poucos preenchidas. Agora irei apenas falar que amei este livro. Tanto a história como a forma que foi contada. E se você não quer saber O QUE ACONTECE no livro, então pare de ler este post agora.
A partir do início
do primeiro capítulo (a metáfora da libra esterlina) fui fisgada por esta
sofrida menina nigeriana. Pequena Abelha
(sim, esse é o nome dela), que deixou de ser menina, mas não se tornou mulher
em um centro de detenção de imigrantes em Londres, foi libertada após dois anos
de confinamento. Já não era uma menina nigeriana. E muito menos uma moça
londrina, apesar de falar como uma (ela se esforçou para aprender a
"língua da Rainha").
As histórias de
Abelhinha e Sarah estão entrelaçadas por algo que aconteceu no passado.
Conhecemos a trajetória de cada uma individualmente: o passado e o presente.
Mas há algo que conecta esses dois momentos. Qual seria esse elo? É um livro
complexo e encantador por conseguir
tratar de temas difíceis que trouxeram tanto terror à vida do povo
nigeriano, mas traz tudo isso do ponto de um ponto de vista que eu não
consideraria nem de longe ingênuo, mas singelo. Pequena Abelha nos faz refletir
sobre os valores dessa sociedade capitalista, que cá entre nós não se restringe
ao Reino Unido, assim como as vítimas da exploração não são somente as
menininha nigerianas. Reflexões interessantes sobre como os-homens-vieram-e-eles levaram o petróleo -
metaforizado como o futuro -, destruíram
as aldeias, mataram milhares de pessoas e abalaram a estrutura familiar e
psicológica de tantas outras e ainda consideram a Nigéria como um país em
desenvolvimento, como se houvessem sido deixados subsídios para que esse
"desenvolvimento" ocorra.
Abelhinha compara o
que esse povo branco considera importante, e o que ela própria, com
sua vida simples em sua antiga aldeia e sua vida cinza no Centro de Detenção de
Imigrantes considera realmente importante. Coisas simples como brincar num
balanço improvisado com um pneu velho embaixo de uma árvore ou pintar as unhas
dos pés de vermelho. Trata tanto da situação indigna dos refugiados no Reino
Unido, como também da vida num subúrbio londrino, relações de infidelidade,
culpa, medo e redenção.
Enquanto estou digitando esse texto, duzentas estudantes nigerianas foram sequestradas e vendidas como escravas para Deus sabe onde. Pequena Abelha pode não ser real, mas ela conta a história de tantas outras meninas que passaram (e ainda passam) por situações semelhantes.
Estou a um bom tempo
lendo livros de ficção fantástica, e cheguei a pensar que talvez tivesse
perdido o gosto por dramas. Não perdi. Esse livro me hipnotizou. Devorei-o.
Entrou para a minha lista de favoritos.
"(...) peço-lhe neste instante que faça o favor de concordar comigo que uma cicatriz nunca é feia. Isto é o que aqueles que produzem as cicatrizes querem que pensemos. Mas você e eu temos de fazer um acordo e desafiá-los. Temos de ver todas as cicatrizes como algo belo. Combinado? Este vai ser nosso segredo. Porque, acredite em mim, uma cicatriz não se forma num morto. Uma cicatriz significa: "―Eu sobrevivi."
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