sexta-feira, 16 de maio de 2014

Pequena Abelha

Na contra-capa do livro vemos o seguinte:
Não queremos lhe contar O QUE ACONTECE neste livro.
É realmente uma HISTÓRIA ESPECIAL, e não queremos estragá-la.
[…]
Depois de ler este livro, você vai querer comentá-lo com o seus amigos. Quando o fizer, por favor, não lhes diga o que acontece. O encanto está sobretudo na maneira como esta narrativa se desenrola.


Então, se você nunca leu Pequena Abelha talvez não devesse ler o que escrevi a respeito porque faço algumas revelações sobre o enredo. Nenhum grande spoiler, mas mesmo assim penso que você deveria ler "às cegas", como eu fiz. E realmente concordo, grande parte do encanto reside na forma como as lacunas vão sendo aos poucos preenchidas. Agora irei apenas falar que amei este livro. Tanto a história como a forma que foi contada. E se você não quer saber O QUE ACONTECE no livro, então pare de ler este post agora.

A partir do início do primeiro capítulo (a metáfora da libra esterlina) fui fisgada por esta sofrida menina nigeriana.  Pequena Abelha (sim, esse é o nome dela), que deixou de ser menina, mas não se tornou mulher em um centro de detenção de imigrantes em Londres, foi libertada após dois anos de confinamento. Já não era uma menina nigeriana. E muito menos uma moça londrina, apesar de falar como uma (ela se esforçou para aprender a "língua da Rainha").

As histórias de Abelhinha e Sarah estão entrelaçadas por algo que aconteceu no passado. Conhecemos a trajetória de cada uma individualmente: o passado e o presente. Mas há algo que conecta esses dois momentos. Qual seria esse elo? É um livro complexo e encantador por conseguir  tratar de temas difíceis que trouxeram tanto terror à vida do povo nigeriano, mas traz tudo isso do ponto de um ponto de vista que eu não consideraria nem de longe ingênuo, mas singelo. Pequena Abelha nos faz refletir sobre os valores dessa sociedade capitalista, que cá entre nós não se restringe ao Reino Unido, assim como as vítimas da exploração não são somente as menininha nigerianas. Reflexões interessantes sobre como os-homens-vieram-e-eles levaram o petróleo - metaforizado como o futuro -, destruíram as aldeias, mataram milhares de pessoas e abalaram a estrutura familiar e psicológica de tantas outras e ainda consideram a Nigéria como um país em desenvolvimento, como se houvessem sido deixados subsídios para que esse "desenvolvimento" ocorra.

Abelhinha compara o que esse povo branco  considera importante, e o que ela própria, com sua vida simples em sua antiga aldeia e sua vida cinza no Centro de Detenção de Imigrantes considera realmente importante. Coisas simples como brincar num balanço improvisado com um pneu velho embaixo de uma árvore ou pintar as unhas dos pés de vermelho. Trata tanto da situação indigna dos refugiados no Reino Unido, como também da vida num subúrbio londrino, relações de infidelidade, culpa, medo e redenção.

Enquanto estou digitando esse texto, duzentas estudantes nigerianas foram sequestradas e vendidas como escravas para Deus sabe onde. Pequena Abelha pode não ser real, mas ela conta a história de tantas outras meninas que passaram (e ainda passam) por situações semelhantes.


Estou a um bom tempo lendo livros de ficção fantástica, e cheguei a pensar que talvez tivesse perdido o gosto por dramas. Não perdi. Esse livro me hipnotizou. Devorei-o. Entrou para a minha lista de favoritos.

"(...) peço-lhe neste instante que faça o favor de concordar comigo que uma cicatriz nunca é feia. Isto é o que aqueles que produzem as cicatrizes querem que pensemos. Mas você e eu temos de fazer um acordo e desafiá-los. Temos de ver todas as cicatrizes como algo belo. Combinado? Este vai ser nosso segredo. Porque, acredite em mim, uma cicatriz não se forma num morto. Uma cicatriz significa: "―Eu sobrevivi."

As Terras Devastadas

Esse bloguinho tá uma verdadeira terra devastada, né? Tão abandonado, coitado. Não é por nada não. Estive lendo três, até quatro livros ao mesmo tempo e não conseguia terminar nenhum. Lia muito devagar porque cansava logo, ou me sentia culpada por estar lendo fantasia quando deveria estar lendo fisiologia ou histologia ou filosofia. Mas eu sempre conseguia uma folguinha, e agora estou de "férias". Coloquei entre aspas porque universidade pública sabe como é, né? Já estamos com o calendário atrasado, greve dos servidores técnicos, sem previsão para o período de matrícula, enfim.

Mas vamos falar de Stephen King e dAs Terras Devastadas à caminho da Torre Negra. Lendo esse livro percebo o que pode ter me atraído nesse autor. O que ele escreve é tão bizarro, mágico, inesperado, bizarro, fantástico, ridículo e muito bizarro... que quando leio a saga da Torre Negra me sinto como se eu estivesse sonhando acordada criando histórias de fantasia loucas, do tipo que se imagina mas não conta pra ninguém.

É sério. Pra ler a Torre Negra você precisa ter sua mente muito aberta. Porque alguns trechos chegam a ser desconcertantes tamanha a bizarrice (vide monstros de reboco, monotrilhos falantes e demônios oráculos tarados). Aquele homem tem uma mente brilhantemente criativa, mas incrivelmente doentia. Isso você percebe facilmente ao observar a extensão de sua obra.
  
Vou assumir o seguinte: se você está lendo esse texto, é porque já leu os livros anteriores da série (O Pistoleiro e A Escolha dos Três), então não tem problema se eu citar acontecimentos passados, certo? Apesar de toda a bizarrice que citei insistentemente, o suspense é bem trabalhado, de forma a me impedir de abandonar a leitura. Ta bom, reconheço, eu sou um pouco adepta ao bizarro. E além disso, nem só de trechos loucos é que se faz um livro de Stephen King.
Conhecemos Jake no posto de parada, ele acompanhou e foi "abandonado" pelo pistoleiro antes que esse encontrasse os outros escolhidos. Roland precisa que seu grupo (ka-tet) fique completo para cumprir o seu ka - algo como destino -  do qual Jake indiscutivelmente faz parte. Quando Jake morreu no mundo de Roland ele disse haver outros mundos além daquele. Ao encontrar uma porta para nosso mundo, Roland consegue evitar a primeira morte de Jake. A partir desse momento as memórias dos dois se embaralhem. A realidade deles se dividem em duas: uma em que eles se conheceram e outra em que esse encontro nunca aconteceu. Então, ambos tentam reestabelecer a sanidade. Loucura, hein.
Essa saga compõe a parte um do livro, que pra mim, foi a melhor, enquanto a parte dois trata sobre a chegada dos pistoleiros (afinal, todos eles são pistoleiros, não é mesmo?) na cidade de Lud, onde muito babado, confusão e gritaria os estava esperando antes que eles pudessem alcançar as terras devastadas.


No fim das contas é isso o que tenho a dizer sobre esse livro (e sobre a saga até aqui): É muito louco, mas ao mesmo tempo é interessante. Não indicaria essa série a qualquer um. Eu mesma ainda não decidi se gosto. Ando numa relação muito instável: algumas vezes gostando, e algumas outras não... E sigo lendo. 

A Escolha dos Três

Esse é o segundo livro da série A Torre Negra, de Stephen King. Ontem, quando escrevi meu relato sobre o terceiro volume da série, As Terras Devastadas, percebi que não tinha postado sobre A Escolha dos Três. Provavelmente esse post não será tão bom quanto poderia ter sido se fosse escrito logo após  término da minha leitura, mas eu não poderia deixá-lo passar em branco, não é?

Dos três volumes que já li este é o meu favorito. No final de O Pistoleiro, primeiro livro, Roland encontra-se com Walter, o mago que perseguiu por tanto tempo. Este homem misterioso revela ao pistoleiro três cartas de tarô: A Dama das Sombras, O Prisioneiro e A Morte. Roland adormece no local do encontro e desperta em uma praia deserta. 

A Escolha dos Três se inicia nessa tal praia deserta. O pistoleiro, debilitado por conta do ataque de criaturas grotescas e das escassez de água e comida, encontra uma porta na qual se vê escrito O PRISIONEIRO. Sim, uma porta no meio do nada sustentada por coisa alguma. Ele ainda encontrará outras duas portas, como você deve imaginar. E em cada uma delas as profecias de Walter devem se cumprir.

Stephen insiste que este livro é mais completo que o primeiro. Tenho que concordar. Algumas das questões deixadas em aberto em O Pistoleiro são respondidas, mas não totalmente, afinal ainda temos outros cinco volumes para respondê-las. A trajetória neste também é mais dinâmica, mudando de radicalmente de cenário (engraçado ver a forma como Roland encara o nosso mundo com tanta surpresa e admiração) e incluindo personagens bastante interessantes, até mesmo pela forma que eles são apresentados a Roland, literalmente em seus próprios pontos de vista. 

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Memórias de uma Gueixa

 Li esse livro em outubro de 2013. Gostei bastante e não sei por qual motivo não consegui escrever minha singela impressão pessoal. Hoje, maio de 2014, tanto tempo depois (não tanto assim, mas minha memória não é lá muito boa, então eu considero bastante tempo) estou finalmente escrevendo meu relato pessoal.

Tenho que falar sobre a urgência que senti em ler essa história. Trata-se do relato de Nitta Sayuri, que ainda não sei se é real ou personagem fictícia. O caso é que essa personagem é extremamente cativante e seu relato me fisgou de tal forma que me fez devorar vorazmente esse livro. Logo, fui surpreendida positivamente, pois eu não esperava que a história fosse me envolver tanto. Principalmente porque eu acreditava se tratar da história de uma gueixa real e eu ter um certo preconceito em relação a histórias reais.
Okay, acabo de checar na internet, Sayuri não existiu de verdade. É meio frustrante saber disso, mas ao mesmo tempo torna o Arthur Golden mais admirável, por ter conseguido adentrar num universo, que apensar de fascinante, é um mistério. Eu tinha uma vaga ideia preconceituosa do que são gueixas, pude reconstruir esse pensamento. O livro me surpreendeu positivamente.

Sobre o fato de Sayuri ser fictícia: A princípio achei extraordinário todos os desencontros (que se provaram na verdade serem encontros) da vida dela e que no fim das contas [spoiler] deu certo, e ela foi feliz. [/spoiler] Crer que uma história como essa, no estilo gata borralheira, é real, soa até ingênuo. Pode até ser. Okay, é. Daí a frustração de saber que é tudo ficção. Por ser uma história linda demais pra ser verdade eu realmente gostaria que assim fosse. E apesar dessa beleza, é bem construída, com o suficiente para encantar uma leitora sonhadora. Mas devo dizer, precisei refletir um pouco e conversar com Carol para pensar assim. Logo que terminei de ler esse livro adorei a personagem, mas eu não conseguia engolir determinados fatos da história que se desencadearam em uma sincronia tão perfeita (foi quando desconfiei que Nitta não fosse real). Engraçado eu gostar tanto que os autores imprimam a realidade em seus personagens e ao mesmo tempo ser fã de fantasia e ter preconceito com biografias (nunca li uma biografia).


Por fim declaro: Adorei conhecer o universo das gueixas. Achei magnífico o retrato de toda a beleza - e da dor que se esconde por trás dela